Cinema: Resenha “Saint Laurent”

saint 01Saint Laurent (2h30min)

Ano: 2014

Dirigido por: Bertrand Bonello

Elenco: Gaspard Ulliel , Jérémie Renier, Louis Garrel , Léa Seydoux, Amira Casar, Aymeline Valade e Helmut Berger.

Gênero: Biografia

Nacionalidade: França

Saint Laurent é a cinebiografia não autorizada do estilista de alta costura Yves Saint Laurent, o filme destaca os acontecimentos ocorridos em sua vida entre os anos 1967 a 1976. Laurent (Gaspard Ulliel), é apresentado como um jovem brilhante que transita entre a imagem de renomado estilista e seu eu libertino, cujo sucesso esconde um ser frágil e profundamente inseguro. Ao seu lado, o companheiro e sócio, Pierre Bergé (Jérémie Renier), responsável por construir e manter o que hoje permanece como uma das marcas mais fortes da alta costura.

Yves é a serenidade em pessoa, sempre em sua sala, munido de uma estranha calma e aparente displicência com o mundo exterior. Merecem destaque as atuações de Gaspard Ulliel (Hannibal – A Origem do Mal) como o jovem Yves e Helmut Berger (O Poderoso Chefão – Parte III) como seu eu mais velho. Ambos compõem um personagem vulnerável e sedutor, reservado, mas sempre atento. Munido de uma feminilidade sútil, elegante e graciosa. Pontos para a caracterização de ambos e também para o design de produção que cria ambientes luxuosos abusando do uso de espelhos para reforçar a vaidade do protagonista e dos que o cercam.

A agitação de seu atelier mostra um pouco da rotina bela, mas também exigente e estressante imposta pela indústria moda. Em uma cena, vemos uma de suas empregadas chorando enquanto costura, pois tivera que refazer uma roupa. O clima fabril e perfeccionista do ambiente de trabalho é evidenciado por uma palheta de cores neutras, recheada de brancos impecáveis e tons pastéis, em conjunto com a alta profundidade de campo (quando todos os planos da cena estão em foco), evocam o papel estabilizador que o oficio possui na vida do protagonista.

Em contra partida, as cenas noturnas são sempre muito escuras e com baixíssima profundidade de campo onde nós, assim como Yves, mal conseguimos (queremos) ver o que está ao redor. Mas se por um lado, há um anseio por parte dele em usufruir ao máximo da vida e seus prazeres, em dados momentos ele refuta-se a “ver” o que faz (simbolicamente representado pelo ato de retirar os óculos), pois seus desejos, não tão belos e socialmente aceitos quanto suas criações, não são dignos da visão.

É em mais uma dessas noites “comuns” regadas a festas, drogas e bebidas que somos introduzidos à figura do boêmio Jacques de Bascher (Louis Garrel). Em meio à multidão que dança na festa vemos ele e Yves trocarem olhares. Em uma sequência primorosa, a câmera viaja por meio do cômodo, fazendo o espectador, assim como os personagens, ansiar pelo movimento do outro.

Jacques que é, em todos os sentidos, o oposto de Pierre cuja relação quase paternal que possui com Yves aos poucos é abalada. Ao passo que consolida seu estilo e sua fama o estilista torna-se cada vez mais dependente das drogas, do álcool e de seu amante. Cabe a Pierre, resgatar Yves, para garantir não apenas a integridade do parceiro quanto da marca.

De modo geral, o longa é feliz em suas escolhas, o trabalho do diretor e também roteirista Bertrand Bonello (L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância) é conciso e sensível sem cair no sentimentalismo barato. As sequências são conduzidas com fluidez e com o tom correto e (mesmo que, às vezes, se estendam demasiadamente), permitem ao diretor arrancar risos da plateia em momentos dramáticos sem prejuízos à narrativa.

O roteiro dá profundidade e humanidade a seus personagens sem que fiquemos com o sentimento maniqueísta de eleger mocinhos e bandidos. As ações de cada um por mais destrutivas, inconsequentes ou superprotetoras se justificam pela personalidade e pelos contextos no qual estão. É impossível odiar Yves Saint Lauren que perante a morte do cachorro tenta a todo custo substituí-lo para mascarar sua culpa e imaturidade.

Outro ponto forte é a trilha sonora, bem pontuada e omitida quando necessário, mesclando música clássica, rock e pop que ajudam a contextualizar a época em que o filme se passa e também a carga sentimental envolvida nas cenas. No que se refere à edição/mixagem de som, cito novamente o encontro de Jacques e Yves em que a musica alta é cortada subitamente fazendo com que o espectador sinta tanto quanto os personagens a intensidade do momento.

Saint Laurent é em suma um grande garoto, um “menino mimado” como dito a certa altura do filme, por vezes, inábil em entender que as pessoas diferentemente das coisas não são facilmente substituídas. O tipo de gênio incapaz de trocar uma lâmpada, mas sem sombra de dúvidas cativante e brilhante ao ponto de não precisar fazê-lo.

Se ele em seu perfeccionismo queria se igualar a Matisse e Mondrian suas criações que brincavam com o feminino e o masculino, ousavam em cores, texturas sem dúvidas o levaram a esse posto. Mesmo em sua amargura final, com a vaidade e a saúde abaladas pela idade e pelas drogas, a exceção de seu grande amor Jaques, não houve nada que ele não tenha conseguido conquistar.

E, se há quem diga que seu legado chegou ao fim. O sorriso convencido e desafiador que encerra o filme já diz o suficiente.

Serviço: Se ficaste curioso e tentado a assistir o filme, a dica é passar no Cine Líbero Luxardo (Av. Gentil Bittencourt, 650, Nazaré) e conferir. Essa semana as sessões vão ser realizadas de 04 a 07/02 (quarta a sábado), às 19h; e 08/02 (domingo), às 16h e 19h. Os ingressos custam R$ 8,00 (estudante paga meia).

Nota: Pra quem quer conferir mais sobre a vida do estilista, recomendo o documentário “O Louco Amor de Yves Saint Laurent” (2010), de Pierre Thoretton e “Yves Saint Laurent” (2014), dirigido por Jalil Lespert, que, diferente de “Saint Laurent” foi “autorizado” por Pierre Bergé.

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