Rihanna e sua criticada tentativa de crescer

Wagner Cardoso

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Mudança é sempre um risco. Ainda mais quando se é um dos maiores ícones pop dos últimos tempos. Alguns são bem recebidos e outros nem tanto. Ray of Light da Madonna, considerado por muitos o melhor álbum da carreira da rainha do pop, foi um risco que deu certo. É um álbum extremamente experimental, corajoso e estranho para uma artista tão popular. Mesmo assim, o álbum foi bem recebido tanto pela crítica quanto pelo público. O mesmo não pode ser dito de American Life, outro álbum corajoso, mas dessa vez pelo seu conteúdo político, recheado de letras críticas aos EUA, o maior comércio musical do mundo, e a guerra desencadeada pós-11 de setembro. O álbum foi o maior fracasso comercial da cantora.

Beyoncé sofreu um processo parecido. 4, o álbum mais maduro e menos pop, até então, da cantora vendeu 4 vezes menos que seu antecessor. Por outro lado, o seu sucessor foi ainda mais ousado, mas conseguiu ser muito bem-sucedido. Duas cantoras pop que arriscaram e atingiram tanto o sucesso quanto o fracasso. Anti, oitavo álbum da carreira da Rihanna, é o seu primeiro grande risco. Ainda é cedo para dizer se será um sucesso comercial, artisticamente não há dúvidas que sim.

Consideration, a primeira faixa do álbum, como o próprio nome indica, chega como um aviso do rumo que a cantora tomou. I got to do things my own way, darling. Will you ever let me? (Eu tenho que fazer as coisas do meu jeito, querido. Você vai deixar?), ela diz no refrão, como se já esperasse uma reação dividida em relação ao álbum. Britney Spears é muito criticada por se escorar nos produtores e não escrever suas músicas, entretanto Rihanna fazia o mesmo e não era perseguida por isso. Loud, por exemplo, não tem se quer uma palavra escrita por ela. As pessoas faziam as músicas pensando em Rihanna, uma cantora que dava voz às palavras de outros. Dessa vez, enfim, ela avisa que vai fazer as coisas do jeito dela.

Analisando sua discografia, já era de se esperar que um dia essa mudança chegaria. Rated R foi quando a cantora começou a sair de uma zona de conforto e tomar certos riscos na sua sonoridade, trazendo um álbum bastante sombrio, devido aos conflitos pessoais que enfrentou na época, mas assim como Talk That Talk e Unapologetic, para cada risco existia uma faixa bastante acessível para não afastar o grande púbico. É claro que isso não significa necessariamente que as faixas mais arriscadas sejam melhores que as comerciais. O maior problema é o resultado final do álbum. Existe uma falta de coerência. Um álbum é como uma redação. Ele deve ter uma estrutura, um tema, uma sonoridade que interligue as faixas. Pela falta de coesão, esses álbuns mais parecem uma coletânea de singles e canções quaisquer feitas para preencher o espaço e pulá-las.

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Esse problema é resolvido no Anti. Ele possui uma estrutura e um conceito definido que o torna de fato um trabalho feito para ouvi-lo integralmente. É basicamente um trabalho conceitual no qual cada faixa é um capítulo de uma odisseia. Rihanna se prepara para uma noitada, fica chapada, vai para a balada para esquecer seu amado, não dá certo, perde o controle da sanidade e faz besteira. Até que se arrepende e resolve ligar para o amado, mas não tem coragem e no outro dia, com ressaca, lamenta-se. Muitos estranharam o fato de Higher ser uma música curta e parecer incompleta. Entretanto, como foi observado por Amanda Petrusich para a Pitchfork: “I wanna go back to the old way, but I’m drunk and still with a full ashtray, with a little bit too much to say” (eu quero voltar para o jeito antigo, mas estou bêbada, com o cinzeiro cheio e muita coisa ainda a dizer)”. E como se nunca tivesse acontecido, como se tivesse apagado a mensagem, foi dormir. A música termina assim, sem ser resolvida.

Anti é o álbum mais pessoal e biográfico de Rihanna. Ela ajudou a escrever 12 das 13 faixas do álbum (a exceção é um cover do Tame Impala). O maior problema do álbum está na falta de músicas marcantes, não necessariamente “farofas”. Bitch Better Have My Money cairia perfeitamente após Work ou Desperado. Afinal, ela ainda é uma artista pop. Ainda assim, amadurecer seu trabalho era necessário. O resultado não foi tão satisfatório, mas o esforço é claro, e tem potencial para alcançar no futuro. Rihanna quer ser levada a sério.

Nesse álbum ela finalmente se abre e mostra sua personalidade, o que apenas víamos parcialmente nos seus trabalhos antigos. A pessoa que ouvimos aqui é a mesma daquela que vemos nas fotos do Instagram, uma jovem garota de personalidade forte, que gosta de curtir a vida sem restrições, com muitas drogas e álcool, que faz besteira e não se importa com o que os outros pensam.

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É contraditório as pessoas que se dizem fãs dela reclamarem desse rumo que a cantora seguiu. Afinal eles a aplaudem por essa personalidade, mas quando ela se expressa musicalmente assim, eles sentem falta das “farofas”, a Rihanna patricinha de Only Girl, Don’t Stop the Music, Right Now e We Found Love. Essa não é ela. Esses são os empresários dela, Calvin Harris e David Guetta. Se você quer ouvir outras We Found Love e Right Now, vá ouvir os álbuns de seus verdadeiros criadores, deixe Rihanna ser quem ela é. Como ela mesma questiona em Consideration: “Why you will never let me grow? (por que você nunca vai me deixar crescer?).

Melhores faixas: Kiss it Better, Needed Me e Higher.

Nota: 7,5

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